700 mortos e não se fala mais nisso

Entre a noite de sábado (18) para domingo, uma embarcação com mais de 900 pessoas naufragou a 135 quilômetros da costa da Líbia. Estimativas sugerem 700 vítimas fatais, apesar de pouco mais de 30 resgatados, entre elas, 40 crianças. Pessoas não identificadas e contadas como números. Apenas suposições, porque também não se sabe ao certo quantos estavam no barco. Eram imigrantes e não queriam (cruel ironia) ser encontrados.

Todos de regiões miseráveis ou refugiados de guerra, cientes do risco de vida na travessia África rumo Europa em um barco velho, lotado e ilegal, mas ainda assim uma opção melhor do que possuem em suas fronteiras de origem.

Prenderam dois homens pelo naufrágio. Os suspeitos sobreviveram ao acidente e foram encaminhados ao porto de Catânia na região da Sicília. Também não foram identificados pelo nome, sabemos que são dois, um da Tunísia e outro da Síria, e serão julgados pelos crimes de homicídio culposo múltiplo e por instigação à imigração clandestina. Há quem julgue, na mídia, os dois homens como feitores escravocratas do próprio povo.

Porém existe uma diferença entre o que foi feito pelos europeus e o que talvez, ainda não se tem provas, fazem os dois sobreviventes detidos. Os tripulantes “escravizados” escolheram estar naquela embarcação e pagaram uma boa soma em dinheiro por uma chance quase minúscula de melhoria de vida na Europa, já os europeus prenderam com correntes os avós daqueles afogados e arrastaram eles à força para outros continentes. Não é possível confundir uma coisa com a outra.

Colocaram dois laranjas para absorverem a gigantesca culpa por anos de descaso com a desigualdade social mundial, com a fome, com a miséria e com a exploração do continente africano. Aqueles dois homens também poderiam ter se afogado junto à tripulação porque também se sujeitam ao risco de morte como forma de sobrevivência.

O transporte ilegal de pessoas é condenável, sem dúvida, mas os passageiros só serão realmente escravizados quando forem contratados, de maneira ilegal, pelas empresas europeias. Que fique bem claro quem são os reais senhores dos escravos no mundo de hoje.

O que os responsáveis pelas políticas de proteção de fronteiras não entendem, ou não querem entender, é que enquanto existir uma disparidade abissal entre um país e outro, haverá gente tentando imigrar. E não há lei capaz de impedir esse movimento.

O acidente é considerado o mais grave na história do mar Mediterrâneo e, ainda assim, pela gravidade e magnitude do caso, é muito provável que o ocorrido seja engavetado na próxima semana. Porque o problema da imigração nas fronteiras é gravíssimo. E como ninguém sabe como solucioná-lo sem escancarar certas verdades inconvenientes, preferem não comentarem mais sobre o assunto.

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